Algumas séries não precisam de grandes reviravoltas para incomodar. All Her Fault é uma delas. A trama parte de uma situação aparentemente simples, um erro, uma escolha cotidiana, e, a partir daí, constrói uma narrativa sufocante sobre culpa, julgamento social e responsabilidade.
O que mais chama atenção na série não é apenas o mistério em si, mas a forma como a protagonista passa a ser tratada. Antes mesmo de qualquer esclarecimento, ela já está condenada. Pela opinião pública, pelas pessoas ao redor e, em muitos momentos, por ela mesma, e é justamente aí que a série ganha densidade.
A culpa que nasce antes da prova.
Em All Her Fault, a ideia de culpa surge muito antes de qualquer confirmação dos fatos. Pequenas decisões são analisadas fora de contexto, comportamentos são reinterpretados à luz do resultado trágico e tudo passa a ser usado como “indício” de responsabilidade.
No Direito, isso não é estranho, infelizmente.
A lógica da série dialoga diretamente com um dos maiores riscos do processo penal: a inversão da presunção de inocência. Quando o desfecho parece grave demais, cria-se uma necessidade quase emocional de encontrar um culpado. E, muitas vezes, pouco importa se a prova sustenta essa conclusão.
A narrativa mostra como a culpa pode ser construída socialmente antes de ser juridicamente demonstrada. Julgamento moral não é julgamento jurídico.
Outro ponto forte da série é a confusão constante entre erro moral e responsabilidade jurídica. O espectador é levado, em vários momentos, a pensar: “ela não deveria ter feito isso”. Mas essa sensação não responde à pergunta essencial: isso a torna culpada?
No Direito, especialmente no penal, essa distinção é fundamental. Nem todo comportamento reprovável é crime. Nem toda decisão equivocada gera responsabilidade penal. E nem toda tragédia tem, necessariamente, um culpado jurídico.
A série expõe o perigo de misturar moral pessoal, emoções coletivas e juízo jurídico, algo que, fora da ficção, costuma gerar processos injustos e condenações precipitadas.
O peso psicológico de ser acusada.
All Her Fault também acerta ao mostrar o impacto psicológico da acusação. Mesmo sem uma condenação formal, a personagem vive como se já tivesse sido sentenciada. O isolamento, a desconfiança e o olhar acusatório funcionam como uma pena antecipada.
No processo penal real, isso tem nome: pena informal. Aquela que não está na sentença, mas destrói reputações, relações e vidas antes do fim do processo.
É um lembrete incômodo de que o Direito não pode ignorar os efeitos humanos do simples ato de acusar.
Uma série que incomoda, e por isso importa.
All Her Fault não entrega respostas fáceis. Ela provoca desconforto, exige paciência e faz o espectador refletir sobre como julgamos, por que julgamos e quão rápido estamos dispostos a apontar culpados.
Do ponto de vista jurídico, é uma série que conversa diretamente com temas como presunção de inocência, responsabilidade, culpa e o perigo do julgamento antecipado, não pelo Estado, mas pela sociedade.
No fim, a pergunta que fica não é apenas “de quem é a culpa?”, mas quem tem o direito de julgá-la.
Se você gostou desta análise e gosta de discutir produções culturais com olhar jurídico, crítico e sem superficialidade, continue essa conversa comigo no Instagram @felipe.s.macedo. Lá eu trago reflexões sobre séries, filmes e temas jurídicos que conectam cultura, Direito e sociedade de forma acessível, sem juridiquês e sem polarização.
A série All Her Fault está disponível para streaming na HBO Max. Se ainda não começou a assistir, esse é o lugar onde você encontra os episódios completos para acompanhar a trama antes de voltar aqui para debater os aspectos mais interessantes e problemáticos da narrativa.
