Nos últimos meses, você provavelmente começou a ouvir uma expressão que até pouco tempo atrás quase não aparecia nas conversas do dia a dia: TERRAS RARAS. O assunto passou a ocupar notícias, discussões sobre Estados Unidos, China, tecnologia, soberania e relações internacionais. Como costuma acontecer no Brasil, rapidamente o tema também começou a ser colocado dentro da disputa entre direita e esquerda, governo e oposição.
Só que existe um problema nisso: as terras raras brasileiras não pertencem a um partido político. São uma questão estratégica para o Brasil.
Antes de discutir quem deveria explorá-las, com quem deveríamos negociar ou quais políticas públicas deveriam ser adotadas, existe uma pergunta muito mais básica que boa parte dos brasileiros ainda não sabe responder: afinal, o que são terras raras e por que o mundo inteiro está interessado nelas?
Terras raras não são simplesmente “terras”
Apesar do nome, não estamos falando de um tipo especial de solo. Terras raras é o nome dado a um conjunto de 17 elementos químicos: os 15 elementos da série dos lantanídeos, além do escândio e do ítrio. E existe outra curiosidade: eles também não são necessariamente tão raros quanto o nome sugere. Muitos estão presentes em quantidades razoáveis na crosta terrestre. A dificuldade está em encontrá-los em concentrações e condições que tornem sua extração, separação e processamento economicamente viáveis.
E é justamente quando descobrimos para que esses elementos servem que começamos a entender por que essa discussão é tão importante.
Terras raras estão relacionadas à fabricação de smartphones, computadores, equipamentos médicos, veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e diversas tecnologias avançadas. Alguns desses elementos são especialmente importantes para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, utilizados em motores elétricos e outras aplicações tecnológicas. Também possuem aplicações estratégicas em sistemas de defesa, radares, aeronaves, equipamentos espaciais e sistemas de orientação.
Ou seja: quando falamos de terras raras, não estamos falando apenas de mineração.
Estamos falando de tecnologia, energia, indústria, defesa, economia e soberania.
E o que o Brasil tem a ver com isso? Muita coisa.
O Brasil possui enorme potencial geológico relacionado às terras raras. A Agência Nacional de Mineração destaca ocorrências especialmente em estados como Minas Gerais, Goiás, Pará, Bahia e Amazonas, enquanto o Ministério de Minas e Energia coloca o país entre os grandes detentores de reservas e potencial desses minerais.
Isso significa que temos diante de nós uma riqueza que pode se tornar cada vez mais importante em uma economia mundial dependente de tecnologia, eletrificação e transição energética.
Mas possuir o recurso natural é apenas o começo da história.
E talvez seja justamente aí que esteja a discussão que nós, brasileiros, realmente deveríamos estar fazendo.
Não basta tirar do chão e mandar embora
O Brasil conhece muito bem a condição de grande fornecedor de matérias-primas.
Temos minério, petróleo, recursos agrícolas, água, biodiversidade e uma quantidade extraordinária de riquezas naturais. A pergunta que precisamos fazer diante das terras raras é se vamos repetir um modelo baseado predominantemente em extrair recursos e exportá-los ou se conseguiremos participar das etapas que realmente agregam valor.
Porque existe uma diferença gigantesca entre vender um recurso mineral e dominar tecnologias capazes de transformá-lo em componentes utilizados em motores, equipamentos eletrônicos, sistemas de energia e produtos industriais sofisticados.
A própria Agência Nacional de Mineração chama atenção para esse ponto. Segundo a ANM, um dos principais riscos para o Brasil não é simplesmente não possuir recursos geológicos, mas deixar de avançar nas etapas de processamento e refino de matérias-primas, perdendo benefícios econômicos, tecnológicos e estratégicos associados aos minerais críticos.
Em outras palavras: não deveríamos pensar apenas em quanto vale aquilo que sai da nossa terra. Precisamos pensar em quanto poderia valer aquilo que somos capazes de produzir a partir dela.
Olhe para a China e você entenderá por quê
A China ajuda a compreender a dimensão dessa questão.
O poder chinês nessa cadeia não decorre simplesmente de possuir terras raras. Ele também está relacionado ao domínio das etapas posteriores à mineração. Segundo dados reunidos pela ANM, a China concentra aproximadamente 60% da mineração mundial de terras raras, cerca de 85% a 90% do refino global e aproximadamente 90% da fabricação de ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro. Dados do USGS igualmente mostram uma enorme concentração chinesa tanto na extração quanto, principalmente, no processamento desses materiais.
Esse é um detalhe fundamental. Quem apenas possui a matéria-prima tem uma riqueza.
Quem consegue extrair, separar, refinar, transformar e utilizar essa matéria-prima para produzir tecnologia controla uma parcela muito maior da cadeia de valor.
É essa diferença que o Brasil precisa compreender.
Por que Estados Unidos, China e outros países estão interessados?
Porque nenhum país que pretende manter uma indústria tecnológica relevante quer ficar completamente dependente de outro para obter insumos essenciais.
A concentração da cadeia de terras raras na China criou uma vulnerabilidade para outros países. A própria ANM explica que não são apenas os Estados Unidos que possuem interesse nesses recursos: diferentes nações procuram garantir fontes de minerais críticos justamente porque suas indústrias de tecnologia, energia e defesa dependem deles.
Portanto, não deveria causar surpresa que grandes potências olhem para países que possuem recursos minerais importantes.
Elas estão defendendo seus interesses. E não há nada de extraordinário nisso.
A questão que realmente deveria preocupar o brasileiro é outra: nós estamos defendendo os nossos?
Isso não significa fechar o Brasil para o mundo
Também precisamos tomar cuidado para não transformar uma discussão estratégica em um discurso simplista de que qualquer participação estrangeira representa necessariamente uma ameaça.
O Brasil precisa de capital, pesquisa, infraestrutura, tecnologia e investimentos. Parcerias internacionais podem ser extremamente importantes para desenvolver uma indústria que exige enormes investimentos e conhecimento tecnológico. O próprio governo brasileiro possui iniciativas voltadas à atração de investimentos para minerais críticos.
A discussão, portanto, não deveria ser simplesmente “estrangeiro pode ou não pode participar?”.
A pergunta deveria ser: em quais condições essa riqueza será explorada e quanto dessa riqueza permanecerá no Brasil?
Se houver investimento estrangeiro, ele ajudará a desenvolver tecnologia aqui? Haverá processamento no Brasil? Formaremos pesquisadores e profissionais brasileiros? Criaremos empregos qualificados? Desenvolveremos fornecedores nacionais? Construiremos capacidade industrial? Haverá transferência e desenvolvimento tecnológico? O Estado brasileiro terá capacidade de fiscalizar os impactos ambientais? O país receberá uma parcela compatível dos benefícios econômicos gerados?
Essas são perguntas muito mais importantes do que simplesmente saber a nacionalidade da empresa que realizará determinado investimento.
A verdadeira riqueza está na cadeia inteira
Imagine dois países. O primeiro possui terras raras, extrai o minério e exporta a matéria-prima. O segundo compra essa matéria-prima, domina sua separação e seu refino, produz materiais avançados, fabrica ímãs de alto desempenho, utiliza esses componentes em motores e equipamentos sofisticados e depois vende produtos tecnológicos para o mundo inteiro.
Qual deles captura mais valor? Essa é a discussão que precisamos fazer.
O Brasil não deveria se contentar em ser apenas o lugar onde alguém encontra a riqueza, retira do solo e leva embora.
Precisamos criar condições para participar de uma parcela cada vez maior dessa cadeia: pesquisa geológica, mineração responsável, beneficiamento, separação, refino, produção de materiais avançados, fabricação de componentes e, quando economicamente possível, produtos tecnológicos finais.
Já existem iniciativas brasileiras de pesquisa nessa direção. O CETEM participa, por exemplo, de projetos envolvendo extração sustentável, refino, materiais avançados e desenvolvimento de ímãs permanentes de alto desempenho.
Isso mostra que a discussão não precisa permanecer apenas no campo da teoria.
Existe também uma questão ambiental
Defender que o Brasil aproveite suas riquezas não significa defender mineração a qualquer custo.
Extração e processamento mineral podem produzir impactos ambientais relevantes, dependendo da jazida, da tecnologia empregada e das características do empreendimento. Por isso, desenvolvimento econômico e proteção ambiental precisam caminhar juntos.
A lógica de soberania não pode ser: “Temos o recurso, então precisamos retirá-lo de qualquer maneira”.
Soberania também significa possuir instituições capazes de estabelecer regras, fiscalizar, exigir responsabilidade ambiental e decidir de maneira racional como determinado recurso será explorado.
O objetivo deveria ser transformar riqueza mineral em desenvolvimento econômico sem destruir justamente o patrimônio natural que também pertence às próximas gerações de brasileiros.
Essa oportunidade NÃO pertence a um governo
Talvez esse seja o ponto que considero mais importante.
Presidentes mudam. Governadores mudam. Congressistas mudam. Partidos vencem e perdem eleições.
Os interesses permanentes do Brasil deveriam sobreviver a todos eles.
Em 2026, o país avançou na construção de uma Estratégia Nacional de Terras Raras e também passou a estruturar políticas de longo prazo para minerais críticos, transformação mineral e agregação de valor. Essas políticas podem e devem ser discutidas, fiscalizadas e aperfeiçoadas pela sociedade independentemente de quem esteja ocupando o governo.
Inclusive, em setembro de 2026 foi sancionada a Lei nº 15.506/2026, que instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Entre as diretrizes apresentadas está justamente o fortalecimento da cadeia produtiva e do beneficiamento nacional desses recursos.
Isso demonstra como o assunto deixou de ser apenas uma curiosidade geológica e passou definitivamente para o campo estratégico.
E é assim que acredito que nós deveríamos enxergá-lo.
Antes de ser de direita ou de esquerda, essa riqueza é brasileira
É perfeitamente legítimo que existam opiniões diferentes sobre como explorar esses recursos. Alguns defenderão maior participação estatal. Outros preferirão protagonismo privado. Alguns defenderão maior abertura ao capital estrangeiro. Outros serão mais cautelosos. Haverá discussões sobre tributação, licenciamento ambiental, royalties, política industrial e relações comerciais.
Tudo isso faz parte da democracia.
O que não deveríamos permitir é que a discussão sobre uma riqueza estratégica para as próximas décadas seja reduzida a torcida partidária.
Quando Estados Unidos, China ou qualquer outra potência procuram garantir acesso a minerais estratégicos, estão pensando em suas próprias economias, suas indústrias, suas tecnologias e sua segurança nacional.
O Brasil precisa fazer exatamente aquilo que se espera de qualquer nação soberana: pensar também no seu próprio interesse de longo prazo.
Isso não significa hostilidade aos outros países. Significa negociar bem. Significa não abrir mão gratuitamente de uma vantagem estratégica.
Significa compreender que recurso natural sem conhecimento pode produzir apenas exportação, enquanto recurso natural combinado com ciência, indústria e tecnologia pode produzir desenvolvimento.
O Brasil precisa parar de descobrir o valor das suas riquezas depois que os outros já descobriram
Talvez a maior contribuição que nós, cidadãos comuns, possamos dar neste momento seja simplesmente conhecer o assunto.
Entender o que são terras raras. Entender por que elas são importantes. Entender por que grandes potências estão interessadas nelas. E, principalmente, começar a cobrar políticas de Estado que transformem essa riqueza geológica em benefício duradouro para o país.
Não deveríamos discutir apenas quem ficará com nossas terras raras.
Deveríamos perguntar: O que o Brasil pretende construir com elas?
Universidades? Pesquisa? Patentes? Tecnologia? Indústrias? Empregos qualificados? Empresas brasileiras competitivas? Capacidade de refino? Ímãs de alto desempenho? Componentes tecnológicos? Desenvolvimento regional?
Se conseguirmos transformar parte dessa riqueza subterrânea em conhecimento, tecnologia, indústria e patrimônio para as próximas gerações, as terras raras poderão representar muito mais do que mais uma commodity brasileira.
Poderão representar uma oportunidade histórica.
E essa discussão não precisa ter partido, candidato ou ideologia.
Pode, e deveria, ter um nome muito mais simples: Brasil.









